Como as crianças comportam-se na sua primeira aula de Psicomotricidade?


Como as crianças comportam-se na sua primeira aula de Psicomotricidade?

    Inicio a reflexão pela provocação da expressão "comportam-se", me questiono porque usamos essa expressão: "filho! Se comporta!" O que seria "se comportar?" (essa reflexão vou deixar para outro post)

    A intenção aqui é explicar qual é a ação, atitude das crianças ao se encontrarem num espaço de aprendizado a partir do seu próprio desejo, de suas iniciativas, ideias e motivações intrínsecas.

    Observando, desde que iniciei minhas aulas na Psicomotricidade com as crianças, percebo diferentes atitudes em relação à este espaço. Vamos à algumas delas, pois cada criança pode manifestar-se de uma forma diferente e inesperada, e essas diferentes formas se dão não apenas em relação às crianças, mas também em relação ao grupo.

    Então, o primeiro tipo de comportamento que observei nas crianças ao se deparar com este espaço do jogar livre e espontâneo, especialmente porque iniciamos as primeiras aulas com a bola, que é um material já conhecido pelas crianças e muito fácil de ser usado para diferentes brincadeiras e criar as primeiras relações, é explorar todos os movimentos, chutar, gritar, correr, agarrar a bola, sentar na bola, rolar em cima dela, e sair dessa primeira aula literalmente exausta, de tanto brincar e jogar com a psicomotricista e com os colegas, é realmente um momento visível de muito prazer do brincar, lindo de ver, criança sendo criança.

    Já o segundo tipo de comportamento que já percebi em algumas crianças é a inibição, elas ficam mais pelos cantinhos da sala, ou no tapete, não entram muito nas brincadeiras que rolam durante a aula, algumas inclusive ao serem questionadas do que elas gostam de brincar, para minha surpresa, uma delas disse: "Eu não brinco na sala (de aula), só faço o que a prof manda.", não que isso realmente aconteça, pois em algum momento as crianças tem que brincar sem que alguém as mande o que devem fazer ou não (pelo menos eu tenho a esperança de que isso aconteça, mas acredito também que seja algo a ser seriamente refletido). Essas crianças geralmente 'soltam-se' nas aulas seguintes, ou até mesmo na primeira aula, mais para o fim, ou durante o meio da aula, depois de perceberem que realmente podem brincar daquilo que desejam e que imaginem poder brincar.

    Algumas buscam o contato com o adulto, por meio dos objetos mediadores de contato, não se sentem a vontade de aproximar-se muito corporalmente, mas através do lançar, receber, seja com o colega ou com o psicomotricista, já estão realizando uma troca que permite a aproximação da relação entre ambos. 

    Umas brincam mais com os colegas, outros buscam o tempo todo o contato com o psicomotricista, mas o mais importante é que "todos os jogos, brincadeiras e formas de interação no grupo, para quem sabe analisá-las, têm grande valor simbólico, e oferecem, a quem delas sabe utilizá-los na prática, inúmeras possibilidades de intervenção", seja para auxiliar aqueles que exprimem mais agressividade, mais energia, seja para auxiliar aquelas crianças mais tímidas, mais inibidas a compreenderem que podem e devem conhecer e vivenciar seus desejos, respeitando o espaço do outro, e seu próprio espaço e ser, assim como o espaço que partilham, o ambiente.

    Em todas as formas de comportamento das crianças, não apenas na sua primeira aula, mas em todas as aulas, o principal é o respeito às suas manifestações, a valorização do que sabem fazer, e o despertar do seu potencial que muitas vezes é desconhecido pela própria criança e o vínculo que criamos com elas, a confiança e o acolhimento, sem julgamento com a qual elas são recebidas.

    Nós adultos criamos expectativas a formas como as crianças devem agir, que atrevo a dizer estranha, pois queremos muitas vezes que as crianças sejam 'adultos', mas por experiências, quando nos dispomos e estar com elas, verdadeiramente, sem projeções das nossas ânsias e desejos, a relação e o espaço de aprendizado fluem de forma muito natural e espontânea.

    Me estendi um pouco, mas só quem vê as crianças saindo no primeiro dia de uma aula de Psicomotricidade conseguem entender, ou então passando pela experiência prática.


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